I Miss # Tenho saudades

 


Este ano veio abanar a nossa vida.

Antes a vida era mais fácil, mais simples. Era fácil tudo, era fácil viajar ir de um lugar para o outro, ter acesso a coisas que não são do nosso pais, ter acesso a crédito, comprar casa, enfim, estávamos a sentir-nos muito confortáveis com o mundo de possibilidades que tínhamos.

Era fácil, era simples. E acomodamo-nos. E o natal então, era outra coisa.

E agora não é nada como antes. Antes a nossa preocupação era se o frio ia chegar cedo, se as colheitas chegariam a tempo do natal, se íamos ter couves para a consoada, onde íamos comprar o peru, qual o supermercado onde íamos comprar as coisas para o natal, quantas pessoas iam vir, como evitar conviver com certas pessoas com quem não merecíamos perder tempo com, o que oferecer aquelas pessoas que pusemos na lista dos merecedores, se o dinheiro do subsídio ia chegar para tudo.

É claro que certamente há pessoas que nunca tiveram estas “preocupações”, certamente são as que menos sofrem pois já nada disso era rotina. Sofrem de outra forma, a maior parte viviam de apoios que de repente desapareceram, da mão amiga que lhes podia ir levar a consoada ou até daquele jantar que as associações faziam na véspera e dia de natal para mitigar um bocadinho a solidão e a indiferença, outros tem demais e isso nunca foi problema. 

Eu tenho saudades. Saudades de chatear o meu pai para irmos “roubar” um pinheiro verdadeiro do vizinho que tinha uma mata/pinhal lá ao lado da casa antiga onde vivíamos, tenho saudades de o ouvir resmungar (Só tu para me chateares com isso!- kkk) , mas lá ia ele comigo e arranjávamos sempre qualquer coisa, o meu pai adorava o natal, o meu pai já não está entre nós. Tenho saudades do cheiro desse pinheiro que inundava a casa toda. Tenho saudades de andar de arame na mão a prender e vergar o “raio” do pinheiro para que ficasse mais harmonioso.

Tenho saudades de a única preocupação recente ser o menu da ceia, o planeamento de atividades a fazer com o meu filho nas férias, tenho saudades de resmungar com as esquisitices de certas pessoas, tenho saudades de me chatear com certas pessoas que para elas o natal era só importante com os amigos e não com a família, são as mesmas agora que a vida lhes impossibilita de estar com essas pessoas agora querem dar "muito" valor a família, mas não tem vínculos afetivos.

Tenho saudades de ser miúda e ter ansiedade de saber que prendas me ia calhar no sapatinho (nunca acertam, ainda hoje é difícil oferecerem algo que realmente preciso e vá gostar), a antecipação de saber se na meia ia calhar um chocolate, um ratinho ou uma sombrinha. Tenho saudades de ser criança, já estou bem pertinho do meio seculo.

Tenho saudades de ter a vida organizada de as únicas preocupações serem coisas fúteis e banais, tenho saudades das pessoas que amo que realmente importam e que já não estão cá.

Sempre fui uma pessoa que sempre deu valor a coisas pequeninas, aos gestos, a palavras de generosidade, bondade, carinho e amizade, coisas pequeninas para uns, coisas gigantescas para mim. As festas que este ano cancelou para mim não são só almoços e jantares, são abraços, e beijos que sempre gostei de dar e que a vida me fez refrear, só dou beijos a quem quero não a quem diziam que tinha obrigação de dar, eram poucas as pessoas que os recebiam eram privilegiadas e agora não os posso dar.

Isto que nos sirva de lição, não devemos ter nada como garantido, o que hoje é amanhã pode não ser, não fazer planos para um futuro distante, passos pequenos mas firmes e a dar quando quiser dar não espere pelo natal, pois o natal pode ser cancelado.

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